Mensagens e áudios extraídos pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, apreendido na Operação Compliance Zero, trazem novos nomes ao caso do Banco Master, incluindo um ministro em exercício, um ex-presidente do Banco Central e o cunhado do próprio Vorcaro.
- Mensagens apontam um jantar entre Vorcaro e o ministro Alexandre Padilha em outubro de 2024, fora da agenda oficial.
- Outras trocas mostram que Roberto Campos Neto, à frente do BC à época, convidou Vorcaro para uma reunião em 2023.
- Áudios do cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, mencionam a tentativa de esconder recursos no exterior.
- As equipes de defesa de Vorcaro e Zettel não se manifestaram; a assessoria de Padilha nega irregularidades.
O material apreendido pela Polícia Federal no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, segue rendendo novas revelações. Depois de mensagens que já haviam colocado em xeque a relação do banqueiro com um ministro do Supremo Tribunal Federal, a imprensa passou a divulgar, nos últimos dias, trechos que trazem outros nomes para dentro do caso: o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.
O pano de fundo: a queda do Banco Master
Vorcaro está preso desde o fim de 2025, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, batizada para apurar suspeitas de fraude de cerca de R$ 12 bilhões envolvendo o Banco Master e o banco público BRB. Na ocasião, o celular do banqueiro foi apreendido e, a partir dele, a PF produziu um relatório de 218 páginas, concluído em agosto de 2026 a pedido do ministro André Mendonça, do STF. Desde então, diferentes veículos de imprensa têm tido acesso a trechos desse material e publicado, aos poucos, novas mensagens e áudios.
O jantar com Padilha
Segundo mensagens obtidas pela Polícia Federal e publicadas pela Folha de S.Paulo e pela Revista Oeste, o ministro Alexandre Padilha participou de um jantar na casa de Vorcaro, em Brasília, em 23 de outubro de 2024. Na época, Padilha comandava a Secretaria de Relações Institucionais, e o encontro, organizado por um consultor que intermediava contatos de Vorcaro em Brasília, não constava em sua agenda oficial. O jantar ocorreu cerca de dois meses antes de o banqueiro se reunir com o presidente Lula no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024.
Procurada pela imprensa, a assessoria de Padilha afirmou que, à época do jantar, não havia nenhuma acusação contra Vorcaro ou o Banco Master, e que o ministro participava rotineiramente de encontros com representantes de diferentes setores. Segundo a mesma nota, não houve qualquer desdobramento relacionado àquele jantar.
O convite de Campos Neto
Outro conjunto de mensagens, divulgado pela coluna de Lauro Jardim, de O Globo, mostra que Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central, foi procurado por Vorcaro em novembro de 2023 para uma conversa sobre os projetos do Master. Campos Neto chegou a sugerir que o encontro acontecesse em sua casa, no interior de São Paulo, mas a reunião teria ocorrido, por fim, na sede paulista do próprio Banco Central.
As mensagens entre os dois são anteriores ao período em que o Banco Master passou a acumular questionamentos de agentes do mercado e de órgãos reguladores. Segundo apuração do jornal O Estado de S. Paulo, essas conversas não constituem, até onde se sabe, prova de qualquer participação do ex-presidente do Banco Central nas irregularidades atribuídas ao Master.
O cunhado e os bilhões em aberto
A parte mais sensível do novo material envolve Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Segundo um áudio obtido pela PF, Zettel contou a uma pessoa próxima, em outubro de 2025, que havia escondido recursos no exterior depois que o Banco Central deu um prazo de três semanas para o Master se reorganizar. Em outro trecho, ele teria dito que Vorcaro mantinha cerca de R$ 20 bilhões fora do país, valor que as autoridades ainda não localizaram em sua totalidade: até o momento, cerca de R$ 2 bilhões em bens foram identificados. As mensagens também indicam que Zettel teria operado pagamentos a advogados, jornalistas e outras pessoas próximas a Vorcaro.
Procuradas, as defesas de Vorcaro e de Zettel não se manifestaram sobre o conteúdo das mensagens.
E os contatos com Lula?
O material também mostra Vorcaro buscando ampliar sua rede de contatos no governo. Mensagens indicam que o banqueiro escreveu ao empresário Walfrido Mares Guia dizendo que precisava "ver o Lula", pouco antes do encontro de dezembro de 2024 no Planalto. Na mesma troca, Mares Guia mencionou que a Biomm, farmacêutica na qual Vorcaro tinha participação de 25%, havia formalizado um pedido de parceria com o governo para produzir insulina humana no Brasil.
O que vem agora
Vorcaro segue preso e, segundo reportagens recentes, negocia um acordo de delação premiada com as autoridades. Até a publicação das últimas revelações, ele não havia indicado o caminho percorrido pelos recursos que, segundo as mensagens do próprio círculo próximo, teriam sido enviados ao exterior. O caso segue sob investigação, e novos trechos do material apreendido podem continuar vindo a público nas próximas semanas.

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