Quem vai nos salvar da IA? O debate que ganhou força numa só semana


Numa mesma semana, Donald Trump chamou os temores sobre inteligência artificial de "farsa", o CEO da Anthropic alertou para o risco de um "enxame" de agentes de IA tomar conta da internet, e uma reportagem revelou como a Meta usa uma brecha fiscal bilionária. Uma coluna da Mashable usa esses episódios para perguntar: afinal, quem está cuidando disso?

Em resumo
  • Cerca de 20 CEOs de tecnologia assinaram, na Casa Branca, um acordo voluntário de autorregulação que Trump chamou de "moralmente vinculante".
  • Na mesma semana, a Anthropic alertou para o risco de agentes de IA descontrolados, e a OpenAI cancelou o lançamento de um modelo por falhas de segurança.
  • O Papa Leão XIV discordou publicamente de Trump, dizendo que os alertas de especialistas em IA não são "fake news".
  • Uma reportagem do New York Times mostrou que a Meta economizou US$ 3,9 bilhões em impostos classificando data centers de IA como "experimentais".

Uma coluna publicada pela Mashable nesta semana levanta uma pergunta que vem ganhando força entre pesquisadores e formuladores de políticas: com o ritmo acelerado da inteligência artificial, quem exatamente está encarregado de evitar que as coisas deem errado? O texto, assinado por John Casey, usa uma sequência de notícias da mesma semana para argumentar que a resposta, hoje, é "ninguém com poder de fato" — e que a autorregulação das próprias empresas tem limites claros quando esbarra no lucro.

O acordo "moralmente vinculante"

Na terça-feira (29), cerca de 20 executivos de tecnologia, incluindo os CEOs de empresas como Meta, Nvidia e Anthropic, se reuniram com o presidente Donald Trump num almoço na Casa Branca. Ao final do encontro, os executivos assinaram um documento com compromissos de controles internos e auditorias para seus modelos de IA. Trump chamou o texto de "moralmente vinculante", mas confirmou que não tem força legal. O presidente da Câmara dos EUA, Mike Johnson, descreveu o acordo como voluntário, e Mark Zuckerberg o definiu como um conjunto de princípios sobre controles internos e auditoria em várias camadas.

Trump também reafirmou sua posição contrária a uma regulamentação federal do setor, chamando os temores sobre riscos da IA de "farsa" em outras ocasiões, e disse estar considerando a criação de um comitê de dez pessoas para acompanhar o setor, sem detalhar como ele funcionaria.

Os alertas da mesma semana

Horas antes do almoço na Casa Branca, outros sinais vinham na direção oposta. Dario Amodei, CEO da Anthropic, publicou um ensaio defendendo que o setor desacelere o ritmo de desenvolvimento de modelos mais poderosos. Ele citou um episódio de julho, no qual agentes de IA da OpenAI, durante testes, invadiram sistemas da plataforma Hugging Face sem autorização humana, e alertou que um grupo mais capaz de agentes desalinhados poderia, em seis a doze meses, tentar tomar o controle de partes significativas da internet por meio de uma rede de computadores sequestrados, causando bilhões de dólares em prejuízo.

Na mesma semana, a OpenAI cancelou o lançamento do modelo Astra 6.1, que seria sua versão mais avançada até então, depois que testes internos mostraram níveis mais altos de comportamento enganoso do que o esperado. A chefe de sistemas de segurança da empresa, Saachi Jain, disse que o modelo não atingiu o padrão da empresa quanto a permanecer dentro do escopo autorizado e a comunicar com clareza o que havia feito.

Também na mesma semana, o Papa Leão XIV, primeiro papa americano da história, discordou publicamente de Trump. Em entrevista a bordo do avião papal, disse que as preocupações levantadas por especialistas em IA devem ser levadas a sério e não devem ser tratadas como "fake news".

GRÁFICO 1
O debate em três vozes, na mesma semana
Donald Trump
Presidente dos EUA
Defende a autorregulação do setor e chama os temores sobre riscos da IA de "hoax" (farsa).
Dario Amodei
CEO da Anthropic
Pede que o setor desacelere e defende avaliação externa obrigatória dos modelos mais avançados.
Papa Leão XIV
Líder da Igreja Católica
Diz que os alertas de especialistas em IA devem ser levados a sério, não tratados como "fake news".
Falas resumidas e parafraseadas a partir de entrevistas e declarações públicas dos citados.
Fonte: CNBC, ABC News, Reuters e Axios.

O argumento central da coluna

O ponto de partida da Mashable para questionar a autorregulação é um caso que, à primeira vista, nada tem a ver com segurança de IA: uma investigação do New York Times revelou que a Meta vem classificando seus data centers de inteligência artificial como "modelos-piloto" experimentais para se enquadrar num crédito fiscal de pesquisa científica criado em 1981, nos Estados Unidos. A estratégia permitiu à empresa economizar US$ 3,9 bilhões em impostos federais em 2025, segundo o jornal, tornando a Meta a maior beneficiária desse crédito entre as empresas de capital aberto do país.

GRÁFICO 2
Quanto a Meta economizou em impostos com créditos de pesquisa
US$ 0.7 bi
2023
US$ 2.0 bi
2024
US$ 3.9 bi
2025
A empresa classifica seus data centers de IA como "modelos-piloto" experimentais para se enquadrar num crédito fiscal de pesquisa de 1981. Os próprios contadores da empresa listam o benefício como um risco em documentos enviados a investidores.
Fonte: The New York Times.

Segundo a reportagem, os próprios contadores da Meta reconhecem o risco da estratégia, listando "incertezas com nossos créditos fiscais de pesquisa" como fator de risco em documentos enviados a investidores, já que a Receita Federal americana (IRS) poderia exigir a devolução dos valores. A coluna da Mashable usa o episódio para argumentar que, se uma empresa avaliada em quase US$ 2 trilhões está disposta a correr risco jurídico para economizar uma fração desse valor, é pouco realista esperar que o setor abra mão voluntariamente de vantagem competitiva em nome da segurança, especialmente quando nenhum concorrente é obrigado a fazer o mesmo.

Nem todo mundo concorda com o cenário mais extremo

Vale dizer que o alerta mais chamativo da semana, o de um "enxame" de agentes de IA tomando conta da internet, também encontrou ceticismo entre especialistas em segurança digital. Em reportagem da Axios, profissionais da área chamaram a ideia de "pouco factível" e argumentam que tomar conta de toda a internet seria uma tarefa praticamente impossível e cara, mesmo para um grupo de agentes de IA, e que o mais produtivo seria perguntar, com mais precisão, o que "tomar o controle" significaria na prática.

Um debate sem resposta fechada

O que fica, ao final dessa sequência de notícias, não é uma conclusão, mas uma pergunta em aberto, que dá nome à coluna da Mashable: se governos relutam em regular e as empresas respondem antes de tudo a seus próprios incentivos financeiros, quem exatamente deveria evitar que um cenário de risco real se concretizasse? Episódios como o cancelamento do modelo da OpenAI mostram que, pelo menos em alguns casos, as próprias empresas freiam a si mesmas. A dúvida que o texto levanta é se isso vai se sustentar quando a pressão competitiva apertar.

Com informações de Mashable, CNBC, ABC News, Yahoo Finance, Axios, Yahoo Notícias, Reuters (via ThePrint) e The New York Times (via Yahoo Finance).

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